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Uma análise do filme A Garota Dinamarquesa

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*Por Patricia Porchat – professora do Departamento de Psicologia da Unesp de Bauru

 A Garota Dinamarquesa não é apenas um filme sobre a transexualidade. Aborda também as relações de gênero: entre homem e mulher, entre mulher e mulher e entre homem e homem. Com atuação fantástica dos atores, percebemos a sutileza dos olhares, gestos e falas que numa relação a dois identificamos normalmente como femininas ou masculinas, não importando se o autor da ação nasceu homem ou mulher do ponto de vista anatômico. Gênero tem um forte aspecto de determinação social.

Gerda, esposa do pintor Einar, ora se dirige a ele como se fosse um homem se dirigindo a uma mulher. Em outros momentos, faz a esposa apaixonada às voltas com seu marido. Quando Lili (a mulher que habita no corpo de Einar) se torna mais presente, Gerda por vezes parece estar se dirigindo a uma amiga. Einar, por sua vez, performa inicialmente o homem junto a outros homens, mas como mulher (Lili), se derrete por um homem que tenta lhe seduzir.

A Garota Dinamarquesa nos dá uma verdadeira aula sobre o que a filósofa americana Judith Butler entende por gênero: um ato performativo. Uma performance que imita gestos ditos masculinos e femininos e que nos dá a ilusão de sermos homens ou mulheres. Há uma quase espontaneidade nesses gestos, eles brotam em nós. São aprendidos desde a infância, imitamos, interiorizamos e repetimos esses atos a tal ponto que chegamos a acreditar que nasceram e brotaram de modo natural. Não é verdade. Gênero está no social, no discurso, no cotidiano. No entanto, na própria definição de Butler, algo pode falhar na repetição que fazemos desse aprendizado. E não falha porque aprendemos mal e sim porque nosso corpo e aquilo que ele nos proporciona em termos de sensações não se traduz plenamente no discurso que está à nossa disposição. As palavras não são suficientes, os gêneros disponíveis na sociedade (homem e mulher) não são suficientes, as categorias que usamos para enquadrar, encaixar e engavetar as experiências corporais não são suficientes. Para muita gente, é preciso inventar um jeito de ser, pois o que está disponível na ordem social não basta.

Essa é uma maneira de encarar a transexualidade. Tratar-se-ia, melhor dizendo, de uma transidentidade, uma identidade que não se adequa ao gênero binário: homem ou mulher assim assinalados a partir do órgão genital com que nascemos. É uma identidade fluida, podendo ser em alguns momentos mais próxima do que chamamos de homem ou mulher, dada uma maior quantidade de elementos que identificamos como masculinos ou femininos. De onde parte, afinal, a ideia de uma adequação total ao gênero masculino ou feminino, senão das instâncias de controle, como o Direito, a Medicina e a Religião?

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