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Metalinguagem poética marca o baiano Ilha

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O longa baiano Ilha, de Glenda Nicácio e Ary Rosa, conquistou a plateia. A dupla já é tarimbada no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Em 2017, eles ganharam melhor filme pelo júri popular com Café com Canela. Merecidamente! Agora, voltam com uma obra metalinguística sobre cinema ainda mais sensível e original. O filme prende o espectador logo de cara. Isto porque já começa banhando-se na metalinguagem. Um suposto “bandido” rapta um diretor de cinema com a intenção de rodar um filme com ele. E tudo acontece com o filme rodando também do lado de lá da telona. Ou seja, um filme dentro do filme. 
O sequestro movimenta a trama. O jovem da periferia da Bahia que passa por sequestrador é Emerson, vivido pelo ator Renan Mota. Já o diretor é Henrique (Aldri Anunciação). Emerson terá a dura missão de convencer o cineasta de rodar com ele. Ou, como diria o personagem: “Vai rolar bala na cabeça se não aceitar!”. A série de ameaças e tentativas de convencimentos chegam a ser exaustivas – a ideia é esta – e até risíveis.
Mas é neste ponto que a produção dá uma reviravolta e é tomada por uma poética e originalidade que surpreendem. No desenrolar, a parceria de Emerson com Henrique vira pura poesia. Henrique, o cineasta, ganha uma câmera para revelar a parte ficcional da vida de Emerson. A outra (câmera) é manipulada por Thacle (Thacle de Souza), este responsável pela parte documental da história narrada dentro da história. 
E a vida de Emerson vai ganhando cores pela direção dos comparsas. A sua relação com a sofrida e submissa mãe (Valdinéia Soriano) e com o pai (Sérgio Laurentino) homofóbico e violento é traçada na câmera de lá e toca a de cá. Na mistura do real e ficcional, Emerson se mostra um artista. Artista que foi oprimido pelo pai em sua infância e adolescência, mas que agora quer sair da “casinha” e da comodidade.  Henrique, o já ultrapassado cineasta, embarca em sua proposta e nas cenas que mesclam desde poesia, até um forte sexo seguido de um momento sublime.  A obra consegue, assim, jogar uma intensa e até irônica carga reflexiva sobre o fazer cinematográfico e, ainda, transita em torno de temáticas sociais, dando voz às minorias. O negro, o gay, o interiorano ganham força na produção de uma forma peculiar. 
*Por Clara Camarano – contato@cine61.com.br

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