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Coringa traz um vilão além do maniqueísmo

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Joaquin Phoenix não precisa provar para ninguém que é um excelente ator. As três indicações ao Oscar e as quase 40 premiações que recebeu na carreira não deixam dúvidas sobre seu talento na hora de interpretar. E esse é o maior acerto do longa-metragem Coringa, que estreia hoje nos cinemas. No papel de Arthur Fleck, o ator não sai de cena praticamente em nenhum momento da projeção, capturando toda atenção do público com seu complexo personagem. Não sobra espaço nem para o reconhecido Robert De Niro, também no elenco.

Os mais desavisados podem se surpreender porque, apesar de ser um filme do universo DC Comics, a abordagem passa longe da maioria das histórias em quadrinhos adaptadas para o cinema. É uma visão mais realista. Por isso, não espere super-heróis ou vilanias absurdas. Coringa é um drama pé no chão, com um ritmo mais lento, e que comove e revolta justamente por trazer uma Gotham tão parecida com tantas outras cidades do mundo: violenta, com desemprego e repleta de pessoas insatisfeitas com suas vidas.

Arthur é um homem depressivo que trabalha como palhaço para viver. Refém de remédios, ele é extremamente magro e sonha em entrar no mundo do stand up comedy enquanto cuida da mãe doente em um apartamento velho. É uma pessoa infeliz, que literalmente se arrasta pela vida enquanto se torna vítima de gangues e várias injustiças. Seu problema mental, que justifica o descontrole de gargalhadas involuntárias, é mostrado de forma séria – tom que é mantido do início ao fim. Com tantos reveses, sua mãe parece manter o otimismo ao acreditar que receberá a ajuda do antigo patrão: o milionário Thomas Wayne.

O filme mostra as origens do icônico arqui-inimigo do Batman de um modo humanizado. É possível compreender e entender o que o levou a se tornar o Coringa dos demais filmes. Nunca antes o personagem foi tão bem trabalhado, sendo uma surpreendente visão para o universo DC. É curioso que o cineasta Todd Phillips, responsável pelo roteiro e direção, tenha ganhado a fama com a trilogia de humor Se Beber, Não Case! porque a comédia é um dos temas centrais da trama. O longa fala sobre a capacidade do humor de fazer rir e chorar de rir. E a figura de um palhaço homicida, enaltecida por uma sociedade castigada pela desigualdade, torna-se um símbolo anarquista da revolta popular. É quando a suposta vilania ganha as ruas e deixa de ser apenas uma atitude dos maus. Esta é a grande questão da história: revelar o Coringa além do maniqueísmo.

*Por Michel Toronaga – micheltoronaga@cine61.com.br

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