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Entrevista com o cineasta Denis Côté

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Denis Côté nasceu na província de New Brunswick, em 1973. Ex-crítico de cinema, produtor e cineasta independente. Seu primeiro longa-metragem, Les États Nordiques (2005) recebeu o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. Com Elle veut le chaos (2008), Côté ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Locarno. Carcasses (2009), que foi concebido durante sua residência artística numa região do litoral sul de Montreal e estreou na Quinzena dos Diretores em Cannes. O trabalho seguinte, Curling (2010), recebeu prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator em Locarno e recebeu três indicações ao Prêmio Jutra, considerado o “Oscar” de Quebec. Bestiaire (2012), uma co-produção Canadá-França, lançada em Berlim na seção Fórum e em Sundance, foi listada pelo New York Times entre os “Melhores Filmes que Talvez Você Tenha Perdido em 2012.” Em 2013, Vic+Flo Viram um Urso recebeu o Prêmio Alfred Bauer – Urso de Prata no Festival de Berlim 2013.Em 2016, Boris without Beatrice foi apresentado na Berlinale e em 2017, A Skin So Soft foi selecionado para Locarno. Desde 2009, a obra de Côté tem sido objeto de várias retrospectivas realizadas em Montreal, Viena, Toronto, Ottawa, Seattle, São Petersburgo, Paris, Nova Iorque e Praga.

ENTREVISTA COM DENIS CÔTÉ

O que te inspirou para escrever a história de Antologia da Cidade Fantasma?

A Quebec dos dias atuais. Sinto que, hoje, as pessoas sentem muito medo de perder a sensação de conforto que a terra natal oferece. Este medo se apresenta de várias maneiras e nossa resistência à mudança é feroz. A ascensão do populismo na mídia, a crise migratória, a relutância em se abrir para outras pessoas e o fechamento identitário são temas que me interessam. O livro de Laurence Olivier é uma coleção poética sobre extratos de vida e estórias desconexas; tentei manter este espírito. As mudanças e lágrimas que ocorrem no tecido social são fenômenos fascinantes, então, criei uma estória com buracos nos quais o sobrenatural pode se infiltrar, introduzindo vários anticlímaxes. Não é um roteiro complexo, mas gosto de brincar com o tom; gosto quando as coisas não são fáceis de serem definidas ou categorizadas. Basicamente, queria escrever um roteiro sobre o Outro e o medo que ele inspira.

Parece um filme de gênero, mas também expressa um desejo de abordar realidades sociais concretas.

Sim. Inicialmente, pensei nas muitas vezes que me pediram para fazer um filme de terror. Comecei a percorrer esse caminho, mas mudei gradualmente mudei para um conto rural que se estende pela linha entre o realismo social e o sobrenatural. Prefiro distorcer as regras do gênero cinematográfico ao invés de segui-las. Por fim, o filme usa a metáfora e explora temas que me interessam, em vez de se transformar num filme de zumbi ou de terror repleto de sustos fáceis.

Quem são os estranhos que retornam à vila?

Eles são a consciência adormecida da aldeia. São igualmente o passado e o futuro das nossas regiões rurais, áreas às quais não prestamos atenção e que, por causa de nossa e da própria indiferença deles, deixamos morrer. Os mortos retornam para alertar os vivos. Eles parecem dizer: “Se você não fizer nada com esta memória, esta história e este território, nós o tomaremos de volta.” São também estranhos com os quais as pessoas da cidade agora precisam conviver. Esse é o caminho indireto que escolhi para falar sobre a imigração e o medo que ela provoca entre os mais desconfiados. A figura do monstro no filme é, com frequência, um símbolo da humanidade perdida. Ela sempre comporta um elemento de romance ou nostalgia. Esses fantasmas se enquadram nessa tradição. Deixo as metáforas flutuarem lentamente e os espectadores capturarem aquilo que lhes diz algo.

Não há um personagem central, isto te preocupou?

Um pouco. Pensei em Altman, Sautet e outros mestres de filmes e crônicas. Durante o processo de escrita e edição, é difícil encontrar o equilíbrio certo e uma maneira elegante de fazer a transição do destino de um personagem para outro, de um tom para outro. Como há pouquíssima oportunidade de se apegar a alguém em particular, o personagem principal se torna a cidade no inverno.

Ficamos com a sensação de que tudo está além do alcance de alguns personagens, mas, ao mesmo tempo, alguns permanecem bem calmos frente ao mistério.

É sempre interessante explorar o medo como força motriz de uma narrativa. Todos os meus moradores tinham uma rotina e certo nível de conforto antes da morte súbita e inesperada de Simon. Decidi mudar a relação deles com a vida cotidiana, ao apresentar um tipo de ultimato à aldeia. Mas este ultimato é apenas ligeiramente alarmante. Todos parecem se acostumar com a bizarrice que se instala na cidade. Realmente gosto disso. Os sonâmbulos conseguem se adaptar facilmente ao novo estado de coisas, enquanto outros entram em pânico. Imaginei 50 imigrantes chegando numa cidade de 200 habitantes. A rotina diária de alguns permaneceria inalterada, mas a de outros… O prefeito Smallwood se apega ao seu papel, enquanto a família Dubé começa a procurar outro lugar. Um jovem e ambicioso casal percebe que está numa encruzilhada, enquanto outro casal da geração dos anos 50-60 dá asas à xenofobia. Paralelamente, Adèle é consumida por todo tipo de medo. O filme é um catálogo de medos.

Você emite algum julgamento sobre a desintegração do tecido social de Quebec?

Há uma comédia insignificante no filme, mas sou bastante crítico em relação ao comportamento vagamente xenófobo que me rodeia, tanto aqui quanto em outros lugares. Fico impressionado com a oposição à diversidade, bem como com a escassez de ofertas culturais fora das áreas urbanas. Nossas cidades estão sofrendo silenciosamente. Mesmo nas metrópoles, seja entre os amantes do cinema ou de outros círculos culturais, o anti-intelectualismo e a falta de curiosidade ganham terreno todos os dias. Penso neste filme como uma reação a tudo isso. Está lá no livro de Laurence Olivier: há algo fúnebre no ar, paralisando as comunicações em todos os segmentos da comunidade. Meu filme registra tudo. Isto não é necessariamente pessimista.

Por que você utilizou um filme de 16mm?

A estória pedia isso. Não queria embelezar o destino da cidade, porque não há nada para se embelezar. Cru, memorável, vago… Todos esses adjetivos fizeram parte das nossas discussões. Sinto que este filme é uma ponte entre meus documentários, que são bastante despojados, e meus dramas, que são mais robustos e contínuos. Este meio termo me agrada bastante.

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