*Por Gabriel Avelar
A Noiva! (The Bride!) estreou nos cinemas brasileiros no dia 5 de março. O filme é dirigido por Maggie Gyllenhaal e traz no elenco principal Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, 2025; Estou Pensando em Acabar com Tudo, 2020) e Christian Bale (Batman: O Cavaleiro das Trevas, 2008; Psicopata Americano, 2000), além de participações de Jake Gyllenhaal (Brokeback Mountain, 2005; Donnie Darko, 2001), Annette Bening (Nyad, 2023; Beleza Americana, 1999), Penélope Cruz (Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas, 2011; Tudo Sobre Minha Mãe, 1999) e Peter Sarsgaard (Setembro 5, 2024; A Orfã, 2009). O longa se inspira no imaginário criado por Frankenstein; ou, o Moderno Prometeu (1818), de Mary Shelley, retomando, em uma nova abordagem cinematográfica, a figura da noiva do monstro consagrada no clássico A Noiva de Frankenstein (1935), de James Whale.
Há algo particularmente corajoso na forma como A Noiva! é filmado. Maggie Gyllenhaal toma a figura da personagem-título, historicamente concebida como uma criação destinada a satisfazer o desejo de outrem, e a coloca em crise narrativa. Um ser cuja existência foi imaginada, construída e narrada por outros. A personagem passa, então, a habitar esse campo de conflitos, entre os imaginários que a concebem e a possibilidade de existir para além deles. Uma identidade condicionada é, ainda, uma identidade?
Há, nesse gesto, algo que sempre me parece admirável nas adaptações: a disposição para a expansão. Não se trata de mera reverência mimética ao material original, mas de um movimento em que o texto de origem é tomado como um campo vivo de ideias. Adaptar, nesse sentido, é continuar pensando a obra, tratá-la não como uma peça mumificada, mas como uma narrativa capaz de sobreviver às interpretações que dela emergem. Isto é, talvez, o gesto mais genuíno de respeito ao original.
É especialmente interessante como o filme reposiciona seu Frankenstein quando passa a operá-lo como aquele que não somente deseja, mas também tenta organizar a experiência da Noiva e, assim, reivindicar uma espécie de posse simbólica sobre o dom de sua “re-vida” através da disrupção da memória que a própria morte exerce na narrativa da protagonista. Em outras palavras: para possuir a Noiva, narra-se a ela uma mentira, fantasiada de uma “experiência” acerca de outra vida que, ainda que fosse seu verdadeiro passado, já não lhe pertence mais. Ainda assim, lhe é imposta uma identidade e, portanto, seu papel enquanto performadora da mesma.
Em alguns momentos, o filme flerta com um certo tom professoral. Ainda assim, há uma frontalidade muito clara na forma como Maggie Gyllenhaal conduz o filme, o que acaba funcionando como eixo de sustentação para alguns desses momentos mais discursivos. O que emerge, ao fim, é uma trajetória que passa a dialogar com um panorama mais amplo de experiências femininas, como se a história individual da Noiva se inscrevesse em um território maior: um país, literal e simbólico, infestado por diferentes formas de misoginia.











