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Ninjago diverte, mas é inferior aos outros filmes Lego

A nova animação da Lego conta a história de um ninja, Lloyd, que busca proteger sua cidade, chamada Ninjago. Para isso, é preciso derrotar o maléfico Garmadon, vilão que busca destruir a cidade com os mais diversos monstros. E, além de ser o grande vilão da história, é também o pai do protagonista. Lloyd ainda conta com a ajuda de seus aliados: Nya, Jay, Kai, Cole e Zane. Eles são seus únicos amigos em uma espécie de Tokyo futurística com vários monstros robôs gigantes.

O filme deixa o espectador entretido, mas não possui tantos momentos cômicos que fazem rir do início ao fim como nos filmes Lego Batman e Lego: O Filme. Houve também momentos supostamente cômicos que se tornaram sem sentido na tela, já que nem as crianças entenderam determinados inserts no longa-metragem. Lego: Ninjago seguiu uma premissa diferente usando atores de verdade (como Jackie Chan, que inicia a história como uma lenda) para introduzir a lenda ninja que se passa no formato Lego.

A trama de adolescentes problemáticos na escola não são trabalhadas e a prioridade parece ser mostrar cenas de ações aleatórias com um pouco de momentos dramáticos entre Lloyd e seu pai, o grande vilão do filme. Na verdade, o antagonista não tem uma razão clara para querer dominar a cidade. Algumas pistas são dadas em alguns diálogos, quando Garmadon tenta recordar sua real motivação.

Os momentos mais interessantes são as referências a Star Wars. Por exemplo, como o filho que não se deixou levar para o lado vilanesco da história e o pai que desejava trazer seu filho para o mal, enquanto o protagonista busca a redenção de seu pai para o bem. Essas referências são sempre acertadas pelos filmes Lego, que acabam sendo trabalhadas em cima do clichê, mas que resgatam o sentimento nostálgico para o público mais velho.

*Por Victor Hugo Menezes Almeida – Especial para o Cine61

Veja aqui o trailer do filme Lego: Ninjago  – O Filme:


Instrumento musical protagoniza O Piano que Conversa

O gênero documentário tem suas peculiaridades e seu público, assim como qualquer outro. O fato é que, com as pegadas investigativas realistas, quem gosta e, até quem não, pode se encantar e descobrir pérolas a partir de um documentário. Consagrado pelas inúmeras entrevistas tête-à-tête, agora uma nova experiência documental vai quebrar esta regra e tomar conta das telonas dos cinemas da capital. Após inovar com inúmeras produções vídeo-experimentais desde a década de 80, o diretor paulista Marcelo Machado chega com uma nova obra documental ainda mais revolucionária: O Piano que Conversa.

Seu novo longa-metragem apresenta um piano como protagonista. Sim, um piano de cauda que pulsa, canta e emite sons que não necessitam de fala, de entrevistas e de narração de fundo explicativa. Afinal, aqui as imagens que chegam a adentrar no instrumento musical. Mostra dos dós maiores aos lás menores, do próprio abandono do objeto que, já na cena inicial, é embalado e levado embora por um caminhão. Estas e dentre tantas outras nuances consagram esta produção tão inusitada quanto sensível.
Não é de se estranhar a inovação. Marcelo Machado é conhecido por filmes experimentais como Tropicália (2012), O Apito do Trem (2009), Oscar Niemeyer, O Arquiteto da Invenção (2007), dentre tantos outros.  E ele não perde o fôlego. O Piano que Conversa consegue mesclar em um enredo simples, porém rico, a vida de um piano com o famoso pianista paulistano Benjamim Taubkin. Nem todos conhecem Benjamim e nem todos vão curtir o gênero que não embarca no senso comum documental. Mas a nuance estética que engloba belas fotografias e uma música que inspira não apenas os ouvidos, mas a alma, é de comover.

Aqui, além das teclas e dedilhados, temos uma trilha que de coadjuvante toma o protagonismo central. Composições, arranjos, interpretações, a vida e as relações musicais mundo afora de Benjamim Taubkin são expostas, em todos os sentidos. A mistura de seu som é mostrada na essência e nas relações experimentais somáticas com dezenas de músicos do Brasil, de Israel, da Polônia, da África, da Bolívia, da Coreia do Sul. O resultado é uma variação criativa que mistura o choro, o jazz e o samba. O filme peca no excesso de duração. Mesmo com 1h17, torna-se cansativo, apesar de belo. Talvez, se fosse retratado em 40 minutos, a experiência musical cinematográfica seria aceita com mais sutileza.



*Por Clara Camarano – contato@cine61.com.br

Veja aqui o trailer do filme O Piano que Conversa:

A escravidão é horror em O Nó do Diabo

Mais um exemplar do terror feito no Brasil, O Nó do Diabo representou o gênero no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Pensado como uma minissérie, o filme foi dirigido por Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi. Os cineastas dividiram-se nos cinco fragmentos que formam o longa-metragem. Uma estrutura que lembra um pouco a série American Horror Story, no sentido de todas as tramas serem praticamente num mesmo local, porém em períodos diferentes.

Atravessando séculos, o roteiro apresenta histórias de violência contra os negros – desde o primeiro segmento, que é contemporâneo, até o último, que se passa no período da escravidão. A ideia, que fica bem óbvia, é mostrar como a herança da desigualdade do passado reverbera até os dias atuais. O ator Fernando Teixeira interpreta Vieira, o dono da fazenda que comete inúmeras atrocidades em todos os episódios. Onipresente, ele transmite a ideia do coronelismo e de como a elite branca se mantem no poder, reproduzindo anos e anos de injustiças.

A ideia de O Nó do Diabo é bem interessante, assim como as histórias, no geral. Contudo, como longa, torna-se um tanto cansativo especialmente pela  falta de equilíbrio. Enquanto algumas histórias são ótimas, outras não se destacam tanto. Com isso, o resultado fica irregular. Vale a pena destacar o segundo trecho, que segue uma estrutura típica e certeira dos filmes de terror. Ambientado nos anos 70, mostra um casal que busca emprego e encontra um pesadelo.

O filme funciona mais por sua crítica social do que como uma produção de horror. Apesar dos esforços da trilha sonora e alguns momentos sanguinolentos, a oscilação entre os capítulos prejudica o clima de tensão que é esperado. A figura verdadeiramente aterrorizante, uma fantasma de olhos vermelhos, aparece pouco e poderia ser melhor explorada. Ainda assim, O Nó do Diabo merece crédito por costurar as histórias e fazer pensar nesta forma de terror da vida real.


*Por Michel Toronaga – 
micheltoronaga@cine61.com.br

Veja aqui o trailer do filme  O Nó do Diabo:

Arábia é uma poética homenagem aos trabalhadores

O dia a dia de um trabalhador pode ser tão simples e leve, quanto árduo. E são nestas simplicidades da vida que vêm a descoberta de pequenas felicidades em meio ao caos. O diretor mineiro Affonso Uchoa consegue expor nas telonas às fragilidades e absurdos das condições trabalhistas, mas sem deixar de lado a doçura do viver. Doçura esta refletida seja em uma boa e longa prosa com um amigo ou no ato de colher uma mexerica de uma árvore. Em parceria com o diretor João Dumans, Uchoa, que ficou conhecido pelo filme A Vizinhança do Tigre, chega agora com  Arábia, uma  produção rica em todos estes detalhes que permeiam a rotina de um trabalhador comum. O longa-metragem encerrou a mostra competitiva da 50ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro com uma verdadeira ode aos trabalhadores brasileiros.
Em Arábia, dois protagonistas se entrelaçam nesta bela história dividida em dois momentos. A começar por André (Murilo Caliari), um jovem que mora com o enfermo irmão mais novo na cidade de Ouro Preto e cuida do mesmo com a ajuda de sua tia, uma enfermeira conhecida na região. A pedido dela, André vai à casa de um operário acidentado apanhar os seus pertences. Um caderno de memórias do operário Cristiano se junta à curiosidade de André e transforma o enredo em páginas de um diário.
Agora, sim, começa Arábia, com a vida e narração em off de Cristiano (Aristides de Sousa). Arábia começa aqui porque é a partir deste momento que o público irá adentrar na árdua vida deste trabalhador que, após ser preso, resolve se aventurar pelos interiores de Minas Gerais em busca de paz e de um trocado para sobreviver. O ponto de partida é Contagem, mas ele irá passar por fazendas onde sofrerá com as explorações rurais dos patrões e pelas cidadezinhas interioranas do estado (aliás, belas fotografias das terrinhas mineiras). O importante é ser honesto e trabalhar para acordar no dia seguinte vivo.

 

De colhedor de frutas, Cristiano passa a fazer  bicos em prostíbulos, em reformas de casas, em fábricas e sofre diariamente com a pressão e condições precárias de trabalho. O personagem não tem muita esperança e, como seu próprio diário relata: “ Minha vida é simples, não fui herói de nada”. Mas, ele se transforma em um herói pela sobrevivência e pouca exigência da amarga vida que leva. No meio da estrada que é retratada por fotografias contemplativas de Leonardo Feliciano, uma trilha sonora que varia entre músicas em inglês e em português embala a vida deste trabalhador comum, sem escolaridade. Um verdadeiro retrato poético e melancólico. Uma verdadeira lição de sobrevivência. Uma bela obra-prima.


*Por Clara Camarano – 
contato@cine61.com.br

Veja aqui o trailer do filme Arábia:

 

 
Arábia (Brasil, 2017) Dirigido por João Dumans e Affonso Uchoa. Com Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Gláucia Vandeveld, Renata Cabral, Renan Rovida…

O futuro distópico das periferias brasileiras

No penúltimo dia do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, todos os filmes exibidos da Mostra Competitiva tiveram participação do diretor ceilandense Adirley Queirós, direta ou indiretamente. Chico, curta do Rio, dos irmãos gêmeos Eduardo e Marcos, começa com o sampler da música Bomba Explode na Cabeça, de MC Dodô, também usada na parte final do filme Branco Sai, Preto Fica, de Adirley. Os gêmeos revelaram que Branco Sai, Preto Fica foi inspiração para Chico. O curta carioca reflete sobre a perseguição aos jovens, o genocídio da juventude negra e como a realidade atual das periferias brasileiras pode se transformar no futuro distópico da fita, onde a internação compulsória de jovens para a ressocialização é aprovada pelo governo.
Já o curta brasiliense Carneiro de Ouro, de Dácia Ibiapina, conta com a produção executiva de Adirley Queirós. A diretora foi até Picos, no Ceará, conhecer os bastidores dos filmes de Dedé Rodrigues. Sozinho, o cineasta aprende cinema com vídeo aulas na internet, revelando assim o poder do mundo virtual. Divertido, o curta funcionou como alívio cômico após o profundo Chico e preparou terreno para Era Uma Vez Brasília, o longa de Adirley Queirós.
Distante do badalado Cine Brasília, que lotou graças ao esperado filme de Adirley, com pessoas assistindo no corredores e laterais do espaço, o Teatro da Praça, em Taguatinga, região administrativa de Brasília que também acolhe o festival, recebia poucas pessoas. O público foi ficando ainda menor durante a exibição de Era Uma Vez Brasília. A trilogia iniciada com A Cidade é Uma Só? se encerrou com Era Uma Vez Brasília. É possível observar a evolução do diretor nas três fitas. Se no primeiro o gênero documental está muito presente, em Branco Sai, Preto Fica a fantasia e a ficção científica vão tomando lugar. Já em Era Uma Vez Brasília, o diretor se lança completamente ao sci-fi, não abandonando o tom documental. Com os discursos de presidentes o longa também assume tom político. Mais que isso, a fita de Adirley, que contou com mais recurso financeiro, investiu na caracterização do personagens e nos cenários, diferente de Branco Sai, Preto Fica.
O viajante intergalático de Era Uma Vez Brasília, WA4, do planeta Sol Nascente, é vivido pelo mesmo ator que vende terrenos irregulares no Sol Nascente, em Ceilândia, no primeiro longa do cineasta A Cidade é Uma Só?. WA4 recebe uma missão, falha e sua nave aterrissa em Ceilândia. Diferente das referências de Adirley, como Mad Max, Era Uma Vez Brasília oferece longas cenas onde a ação não existe, somente a contemplação de lindas imagens vindas da cabeça imaginativa e criativa de Adirley. Também distópico, o longa não oferece boas perspectivas para o futuro das periferias. Também é o mais difícil do cineasta. Feito por alguém da periferia e na periferia, o longa não agradou o público que assistiu a fita no Teatro da Praça, poucas pessoas ficaram até o final da exibição.

*Por Vinícius Remer da Silva – Especial para o Cine61

Veja aqui o trailer do curta Era uma Vez Brasília:




Era Uma Vez Brasília (Brasil, 2017) Dirigido por Adirley Queirós. Com Wellington Abreu, Andreia Vieira, Marquim do Tropa, Léo Gordo, Sandra Carla…

Confira todos os vencedores do 50º Festival de Brasília

Veja a seguir a relação de todos os vencedores da 50ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro:
PRÊMIOS OFICIAIS Troféu Candango – Longa-metragem:
Melhor Filme: Arábia, dirigido por Affonso Uchoa e João Dumans
Melhor Direção: Adirley Queirós por Era uma vez Brasília
Melhor Ator: Aristides de Sousa por Arábia
Melhor Atriz: Valdinéia Soriano por Café com canela
Melhor Ator Coadjuvante: Alexandre Sena por Nó do Diabo 
Melhor Atriz Coadjuvante: Jai Baptista por Vazante
Melhor Roteiro: Ary Rosa por Café com canela
Melhor Fotografia: Joana Pimenta por Era uma vez Brasília
Melhor Direção de Arte: Valdy Lopes JN por Vazante.
Arábia
Melhor Trilha Sonora: Francisco Cesar e Cristopher Mack por Arábia
Melhor Som: Guile Martins, Daniel Turini e Fernando Henna por Era uma vez Brasília
Melhor Montagem: Luiz Pretti e Rodrigo Lima por Arábia
Prêmio Especial do Júri: Melhor Ator Social para Emelyn Fischer, por Música para quando as Luzes se apagam
Júri Popular ( Prêmio Petrobras de Cinema) longa-metragem: Café com canela, dirigido por Ary Rosa e Glenda Nicácio
PRÊMIOS OFICIAIS – Troféu Candango – Curta-metragem:
Melhor Filme: Tentei, dirigido por Laís Melo
Melhor Direção: Irmãos Carvalho por Chico
Melhor Ator: Marcus Curvelo por Mamata
Melhor Atriz: Patricia Saravy por Tentei
Melhor Roteiro: Ananda Radhika por Peripatético
Melhor Fotografia: Renata Corrêa por Tentei
Tentei
Melhor Direção de Arte: Pedro Franz e Rafael Coutinho por Torre
Melhor Trilha Sonora: Marlon Trindade por Nada
Melhor Som: Gustavo Andrade por Chico
Melhor Montagem: Amanda Devulsky e Marcus Curvelo por Mamata 
Prêmio​ ​especial: Peripatético, dirigido por Jéssica Queiroz
Júri Popular – Curta-metragem: Carneiro de ouro, dirigido por Dácia Ibiapina
OUTROS PRÊMIOS
Prêmio Canal Brasil: Chico, dirigido por Irmãos Carvalho
Prêmio Abraccine Melhor filme de longa-metragem: Arábia, dirigido por Affonso Uchoa e João Dumans
Prêmio Abraccine Melhor filme de curta-metragem: Mamata, dirigido por Marcus Curvelo
Prêmio Saruê: Afronte, direção de Marcus Azevedo e Bruno Victor
Prêmio Marco Antônio Guimarães: Construindo pontes, dirigido por Heloísa Passos
Prêmio CiaRio/Naymar Para o melhor curta pelo Júri Popular: Carneiro de ouro, dirigido por Dácia Ibiapina 
MOSTRA BRASÍLIA – 22º Troféu Câmara Legislativa do Distrito Federal 
Prêmios do Júri Oficial: 
Melhor longa-metragem (R$ 100 mil): O fantástico Patinho Feio, dirigido por Denilson Félix
Melhor curta-metragem (R$ 30 mil): UrSortudo, dirigido por Januário Jr.
Tekoha – Som da Terra, dirigido por Rodrigo Arajeju e Valdelice Veron
Melhor direção (R$ 12 mil): Dácia Ibiapina, por Carneiro de ouro
Melhor ator (R$ 6 mil): Elder de Paula, por UrSortudo
Melhor atriz (R$ 6 mil): Rafaela Machado, por Menina de barro
Melhor roteiro (R$ 6 mil): Januário Jr., por UrSortudo
UrSortudo
Melhor fotografia (R$ 6 mil): Gustavo Serrate, por A margem do universo
Melhor montagem (R$ 6 mil): Lucas Araque, por Afronte
Melhor direção de arte (R$ 6 mil): Bianca Novais, Flora Egécia e Pato Sardá, por O Menino Leão e a Menina Coruja
Melhor edição de som (R$ 6 mil): Maurício Fonteles, por Tekoha – Som da Terra
Melhor trilha sonora (R$ 6 mil): Ramiro Galas, por O vídeo de 6 faces
Prêmios do Júri Popular
Melhor longa-metragem (R$ 40 mil): Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado
Melhor curta-metragem (R$ 10 mil): O Menino Leão e a Menina Coruja, dirigido por Renan Montenegro
Prêmio Petrobras de Cinema – Para o melhor longa-metragem pelo Júri Popular da Mostra Brasília: Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado
Prêmio Plug.in Para o melhor longa-metragem escolhido pelo Júri Popular da Mostra Brasília: Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado
Menina de Barro
Prêmio ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo – Marco Curi, Manfredo Caldas e Gerlado Moraes
Prêmio CiaRIO – Melhor longa-metragem escolhido pelo Júri Popular da Mostra Brasília: Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado
Melhor curta-metragem escolhido pelo Júri Popular da Mostra Brasília: O Menino Leão e a Menina Coruja, dirigido por Renan Montenegro

FestUniBrasíla – 1º Festival Universitário de Cinema de Brasília
Melhor Filme: O arco do medo, dirigido por Juan Rodrigues (Universidade Federal do Recôncavo Baiano) 
Melhor Direção: Fervendo, dirigido por Camila Gregório (Universidade Federal do Recôncavo Baiano) 
Júri Popular: O Homem que não cabia em Brasília, dirigido por Gustavo Menezes (UnB)
Menção Honrosa – Método de construção criativa: Afronte, dirigido por Bruno Victor e Marcus Azevedo (UnB) 
Menção honrosa – Fotografia: Gabriela Akashi, por Serenata (USP)
Menção Honrosa – Filme de animação: Mira, dirigido por Janaína da Veiga (Unespar) 

Notas sobre Peripatético, As Melhores Noites de Veroni e Chico

O curta Peripatético (SP), de Jéssica Queiroz, traz uma história de 15 minutos inspirada em fatos reais. Fala de três adolescentes que lutam pela sobrevivência nas árduas periferias de São Paulo. Michel, que ainda não sabe o que fazer da vida; Thiana, que tenta passar no vestibular de Medicina; Simone, a jovem em busca do seu primeiro emprego. A produção é baseada na luta Mães de Maio e no período no qual a capital paulista sofreu inúmeros ataques e assassinatos de jovens pela facção PCC, em 2006.  

Excelente temática, que peca apenas pelo curto tempo  para um maior aprofundamento. Narrações em off, animações, drama  juvenil, tudo junto e misturado. Paripatético  envolve, mas até certo ponto. A diretora precisaria de muitos frames a mais para relatar tantas temáticas e opções narrativas. Fica aquele gostinho e vontade de adentrar na vida daqueles jovens e dos tantos debates essenciais. Mesmo assim, vale a pena assistir  e entender a  mensagem que fica:  “Como é difícil existir”. 

A rotina diária de um casal é permeada de detalhes. Desde cozinhar, levar a toalha para o banho para o parceiro, arrumar a filha para ir à escola. O primeiro curta de ficção de Ulisses Arthur, de 23 anos, As Melhores Noites de Veroni, adentra com sutileza no cotidiano da vida entre quatro paredes. Veroni (Lais Lira) é mulher de um motorista de caminhão (Jorge Adriani). Na ausência do marido que vive na estrada, ela  busca o que fazer e  descobre na música uma libertação interna. Roteiro – também de Ulisses – simples, mas rico. Além de mostrar a relação marido e mulher de uma forma realista, a produção conta com críticas intrínsecas, a exemplo da filha que gosta de seu cabelo cacheado e briga quando a mãe tenta passar chapinha. Sem dúvidas, um forte concorrente na mostra competitiva de curtas-metragens. 



*Por Clara Camarano – contato@cine61.com.br

Perfil: a atriz e autora Bruna Lombardi

Bruna Lombardi é conhecida do grande público brasileiro por sua sólida carreira como atriz de cinema, TV e teatro, além de escritora, poeta, roteirista, apresentadora e produtora. Bruna estreou como roteirista na comédia americana Stress, Orgasms and Salvation (2005). O Signo da Cidade (2008) foi seu segundo roteiro para cinema, ganhador de nove prêmios nacionais e internacionais. Muito elogiado pela crítica, o roteiro foi comparado à estrutura narrativa de Robert Altman e aos blockbusters internacionais Babel e Crash, pela maestria e capacidade de Bruna de dar veracidade e consistência aos seus diversos personagens em um roteiro coral e emocionante.
 
 

O roteiro do filme O Signo da Cidade foi publicado em 2008 pela Imprensa Oficial. Onde Está a Felicidade? é o seu terceiro roteiro filmado. Como atriz, um dos seus trabalhos mais marcantes na TV foi o prestigiado personagem Diadorim, de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, um clássico da literatura brasileira. Bruna apresentou e produziu durante dez anos o programa Gente de Expressão, entrevistando grandes nomes e personalidades no Brasil e no mundo. Entre seus livros publicados estão No Ritmo dessa Festa, Gaia, O Perigo do Dragão, Apenas Bons Amigos, Diário do Grande Sertão e Filmes Proibidos.

Debates no festival destacam papel do negro no cinema

A representação de pessoas negras nas telas de cinema e a participação delas nas diferentes etapas da realização de um filme, em especial no roteiro e na direção, foram temas que permearam as discussões sobre os filmes da mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que vai até domingo (24). A curadoria do festival selecionou para a mostra filmes com diferentes representações de personagens negros, homens e mulheres, dirigidos por brancos e negros de ambos os sexos, de diferentes regiões do país. “Ao ver o que se apresentava, seria muito difícil a curadoria não perceber a importância que tinha essa discussão nesse momento. A gente não estava no papel de pautar uma discussão e encontrar os filmes, mas os filmes claramente nos colocavam a possibilidade de trazer essas questões”, disse o diretor artístico do Festival, Eduardo Valente.
Foto: Rômulo Juracy
A discussão começou intensa após a primeira noite da mostra competitiva. O filme Vazante, dirigido por Daniela Thomas, foi aplaudido após a exibição no último sábado (17), mas recebeu uma série de críticas de negros e negras durante o debate sobre a obra, realizado no dia seguinte com a presença da diretora e de parte do elenco. “Num filme de época, quando dirigido por um diretor branco, escrito por um roteirista branco, em geral, os atores negros fazem escravos. Escravos em geral são só escravos, não são pessoas, temos que pensar sobre isso, sobre a subjetividade das pessoas escravizadas”, questionou a atriz Mariana Nunez.
Vazante
O ator Fabrício de Oliveira, que é negro e está no elenco de Vazante, disse que há subjetividade nos personagens, mas que o filme poderia estar “mais recortado para esse olhar, ainda mais sendo feito hoje”. Após assistir ao filme completo pela primeira vez durante o festival, o ator disse que o resultado despertou nele uma série de questionamentos. “Acho importante que esse filme seja realmente discutido, que a gente se coloque mesmo. Porque eu acho que ele traz essa questão do recorte estar sendo sempre pelo olhar branco, mas que ao mesmo tempo é parte da nossa história.”
Receptiva às críticas, a diretora Daniela Thomas afirmou durante o debate que hoje não faria o mesmo filme, mas considera que a obra terá um papel importante em fomentar esse tipo de discussão no cinema nacional. “Tratando-se de um branco e do ponto de vista da menina, vai suscitar muita discussão, mas ao mesmo tempo eu me sinto honrada e orgulhosa de poder estar no meio dessa discussão e ouvir essas vozes que eu ouço muito raramente. Para mim está sendo um aprendizado.”

*Por Leandro Melito, da Agência Brasil

Comentários sobre os curtas Tentei, Torre e Baunilha

Após uma longa apresentação da cineasta Laís Melo e sua equipe, o curta-metragem Tentei foi exibido na Mostra Competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Produção totalmente encabeçada por mulheres, a ficção do Paraná traz a crueza e a dor de um tema atual e que merece ser discutido: a violência contra a mulher. O realismo da câmera na mão é somado com a interpretação arrebatadora de Patricia Saravy, fortíssima candidata ao troféu Candango de melhor atriz este ano. Mesmo com poucos diálogos, ela transmitiu com perfeição todo o sofrimento e constrangimento de quem sofre agressões em casa. Um filme importante e urgente.
Única animação em competição na Mostra Competitiva, Torre tem direção de Nádia Mangolini. Longe de ser infantil, o filme fala de quatro irmãos, filhos de Virgílio Gomes da Silva, o primeiro desaparecido político da ditadura militar brasileira. Os depoimentos e recordações são retratados na telona por meio de diversas técnicas de animação, que procuram ilustrar como foi o complicado período na vida daquela família.

Tendo como base as visões dos entrevistados, que eram muito novos na época, o público pôde se conectar e se emocionar com os relatos. Embora seja um tema recorrente nos festivais, o tema da ditadura ainda se mostra necessário, visto que ainda existem pessoas que parecem não compreender o que significou o regime na vida de inúmeros brasileiros. O último segmento do ótimo curta é extremamente comovente, concluindo o filme da melhor forma possível.
Com um tom bem didático e esclarecedor sobre o BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), o mestre Brenno Furrier é o protagonista do documentário Baunilha, de Leo Tabosa. Produção pernambucana, o curta mostra a casa e a masmorra de Furrier, além de contar detalhes sobre sua vida. As práticas que aparecem na telona podem assustar os desavisados, mas o mais interessante é conhecer as motivações e história do personagem. Mesmo sem revelar o rosto por questões de privacidade, ele entrega seu passado para as câmeras. Isso criou uma surpreendente visão pois, por trás de um algoz que chicoteia e tortura (sempre com consentimento, que fique claro), existe um homem extremamente sentimental.

*Por Michel Toronaga – micheltoronaga@cine61.com.br