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Rivalidade e romance pontuam Não Devore o Meu Coração!

Na fronteira entre o Mato Grosso do Sul e o Paraguai, o confronto entre índios, brasileiros e paraguaios é uma constante infeliz. O novo longa-metragem do diretor carioca Felipe Bragança traz esta temática para as telonas. Um tema que  contextualiza-se às duras cicatrizes deixadas desde a Guerra do Paraguai. O diferencial: apesar deste conflito, uma paixão juvenil nada ingênua se sobrepõe. Após passar pelo 67º Festival de Cinema de Berlim em fevereiro, o filme  Não Devore Meu Coração! foi escolhido para abrir a 50ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro na noite de sexta-feira com este “soco na barriga”.  A estreia oficial será no dia 23 de novembro nas salas dos cinemas brasileiros.

O título não induz, como pode se ver, apenas a guerra, em si. Afinal, o foco maior aqui é o de uma paixão que guia e transforma o longa de Bragança em uma obra sensível e única. Não é de se estranhar. O diretor é apaixonado por temas fortes e pela fase da adolescência. Ele lançou, em 2013, Claun (Parte 1: Os Dias Aventurosos de Ayana). O média-metragem retrata a briga entre gangues nos subúrbios do Rio de Janeiro por meio da história da jovem Ayana (Jennifer Melo). Em Não Devore Meu Coração, é o menino brasileiro Joca (Eduardo Macedo) e a índiazinha Basano (Adeli Gonzales) que conduzem o enredo numa cidadezinha do interior do  Mato Grosso do Sul. Aliás, é interessante como desde o início da trama pode se observar a mistura entre a suposta paixão da dupla com as adversidades entre as etnias. Assim como a dureza dos adultos e a guerra na fronteira.
Em um paralelo a esta paixão, temos a presença de Fernando, o irmão mais velho de Joca vivido por Cauã Reymond. O personagem é o símbolo da fase adulta e das marcas das revoltas acumuladas com o tempo. Motoqueiro e mulherengo, Fernando se junta a uma gangue para ser aceito em terras motogrossenses e acaba por criar inúmeras rixas com índios e paraguaios. Ele e Joca foram parar ali após o duro divórcio da mãe Joana (Cláudia Assunção) e o pai. Neste contraponto entre adultos x jovens, índios x paraguaios x brasileiros,  ninguém sai ileso. Enquanto Fernando é tido como o “Príncipe” entre o grupo de motociclistas coordenado por Telecath (Marco Lóris), Joca sonha diariamente com sua índia e rebela-se contra o irmão mais velho.

A índia Basano, no entanto, mostra-se como uma menina mulher que não tem como foco a paixão. Mas, sim, a preocupação com a exterminação do seu povo. A falta de ingenuidade e as tribos opostas representam aqui um novo conceito do amor romântico, aquém da era de Romeu e Julieta. Belo filme, com tomadas lindas e cenas encantadoras que dão ainda mais gosto de assistir.



*Por Clara Camarano – contato@cine61.com.br

Veja aqui o trailer do filme Não Devore Meu Coração!




Não Devore Meu Coração! (Brasil, 2017) Dirigido por Felipe Bragança. Com Cláudia Assunção, Adeli Benitez, Zahy Guajajara, Marco Lori, Eduardo Macedo, Ney Matogrosso, Leopoldo Pacheco, Cauã Reyomond, Mario Verón…

Saiba como foi a abertura do 50º Festival de Brasília

O 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começou na última sexta-feira (15/09) com uma verdadeira homenagem ao audiovisual verde e amarelo. A cerimônia de abertura foi apresentada por Juliano Cazarré e Dira Paes. Eles fizeram um tributo aos diretores Marcio Curi, Manfredo Caldas e Geraldo Moraes – que faleceram recentemente. Foram exibidos curtas sobre as trajetórias dos cineastas e suas importantes colaborações para o cinema feito na capital. Outro nome que recebeu uma homenagem foi o paulistano Nelson Pereira dos Santos (Rio 40 Graus), que ganhou a medalha Paulo Emílio Salles Gomes. 
Dira Paes e Juliano Cazarré. Fotos: Rômulo Juracy
Um dos momentos mais emocionantes da noite foi a intervenção do ator e diretor Matheus Nachtergaele. Surpreendendo o público, ele começou um monólogo surgindo por entre a plateia. Ao caminhar até o palco, ele relembrou inúmeros nomes da sétima arte brasileira e recitou um poético texto que enalteceu não apenas Brasília, mas todo o festival. Afinal este ano é completado meio século do evento. Destaque para a praça de alimentação ambientada para receber grande público e uma exposição cronológica com cartazes dos filmes vencedores de todas as edições do Festival de Brasília. 
Performance de Nachtergaele foi aplaudida de pé
Entre atores, cineastas e público, gerou burburinho a presença do ator Cauã Reymond. Sorridente e animado, ele deu entrevistas e posou para fotos. Cauã faz parte do elenco do longa-metragem Não Devore Meu Coração!, com direção de Felipe Bragança (A Alegria). O filme foi exibido na abertura e conta a história do amor impossível de um menino brasileiro e uma menina indígena paraguaia, fazendo um paralelo com a sangrenta batalha que marcou a história dos países no passado e uma rivalidade que existe até hoje.
Cauã. Foto: Felipe Costa
A noite também reservou espaço para protestos, com gritos de “Fora Temer” – uma manifestação que provavelmente deve ser repetida durante todo o evento. Uma das novidades deste ano é que o público pode votar no seu filme favorito através de um aplicativo, que contém também toda a programação do festival. Ele está disponível no GooglePlay e AppleStore.
*Por Michel Toronaga – micheltoronaga@cine61.com.br

Confira os filmes selecionados para o I FestUniBrasília

Criado em 1965, pelo professor, historiador e crítico Paulo Emílio Salles Gomes, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro tem como berço o curso de cinema da Universidade de Brasília. Comemorando o seu cinquentenário, o festival resgata sua história e abre espaço em sua programação para exibir curtas-metragens produzidos por universitários de todo país. Professores e professoras do atual curso de Audiovisual da UnB realizarão o I Festival Universitário de Cinema de Brasília – FestUniBrasília.

O Homem que Não Cabia em Brasília

A mostra, fruto da parceria com o Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual (Forcine), irá fazer parte da programação oficial do FBCB e acontecerá nos dias 16 e 17 de setembro. Serão exibidos 20 curtas-metragens, com duração máxima de 30 minuto, distribuídos em duas sessões.

Vazio do Lado de Fora

O FestUniBrasília irá reforçar o diálogo com os jovens cineastas do país, além de dar a oportunidade para novas gerações exibirem suas produções em um dos mais importantes festivais de cinema do Brasil. Além de ser o mais antigo ainda em atividade no Brasil e na América do Sul, o FBCB também é considerado o mais político dos festivais brasileiros.

As Melhores Noites de Veroni
Sobejar (12) – Unespar/PR documentário
Mira (15) – Unespar/PR animação
Fora de quadro (22) – UFPE/PE documentário
Afronte (26) – UnB/DF doc-ficção
Deus (35) – UFPEL/RS doc-ficção
Vazio do lado de fora (44) – UFF/RJ ficção
Latossolo (55) – UFRB/BA documentário
O homem que não cabia em Brasília (60) – UnB/DF ficção
O arco do medo (90) – UFRB/BA experimental/videoarte
Serenata (94) – CTR/ECA/USP/SP ficção
A outra caixa (113) – UnB/DF experimental
Fervendo (119) – UFRB/BA ficção
As melhores noites de Veroni (126) – UFRB/BA ficção
Pele suja minha carne (172) – UFF/RJ ficção
O chá do general (181) – FAAP/SP ficção
Procura-se Marina (184) – IFG/GO ficção
Com os pés no chão (193) – UFBA/BA ficção
Essa barra que é gostar de você (222) – PUC-Rio/RJ ficção
Bambas (228) – FAAP/SP documentário
Michel (248) – Unisinos/RS ficção




Diretor do curta Baunilha conversa sobre seu curta BDSM

Representante de Pernambuco, um dos estados mais presentes no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o curta-metragem Baunilha trata do universo do sadomasoquismo. O filme faz parte de uma trilogia relacionada com os desejos. O diretor da produção, Leo Tabosa, conversou com o  Cine61 sobre o filme, que está na Mostra Competitiva do evento:

Baunilha faz parte de uma trilogia, certo? Comente sobre como é o projeto como um todo.

O projeto, Trilogia do Desejo, teve início com o curta-metragem documental Tubarão. Tubarão conta a história de Dale, um norte americano que realiza filmagens amadoras, de pegação gay, em banheiros públicos, na cidade do Recife. Há uma emoção profunda no universo de Dale, a morte devastadora do seu companheiro e amante. O desejo principal a ser contado em Tubarão é o desejo do personagem em se conectar à sua nova realidade, mostrando as diferentes maneiras que as pessoas podem buscar para superar uma perda, sem apresentar nenhum julgamento ou mesmo conclusão. A proposta da trilogia é sempre contar uma história real e que essa história seja compreensível e que leve o espectador a uma reflexão, a um novo olhar sobre o tema que estou tratando. Meu cinema se interessa pelo contemplativo e pela observação dos fatos comuns ao redor dos personagens. Muitos deles, à deriva de seus sentimentos, buscando através de desejos íntimos uma conexão com uma sociedade que muitas vezes os oprimem. Em Tubarão e Baunilha procurei personagens que vivem uma existência comum e que, ao mesmo tempo, são marginalizados pela sociedade. Os meus personagens são movidos pelo desejo. O desejo é o combustível que os movimentam.

E qual é o próximo filme da trilogia?

O próximo filme para fechar a trilogia será O Devotee, que contará a história de um homem que se sente sexualmente atraído por pessoas com deficiência e sua predileção por algum tipo de equipamento assistivo como: cadeira de rodas, muletas, aparelhos ortopédicos, bengalas. No momento estou trabalhando no segundo tratamento do roteiro.

Seu curta tem cenas numa masmorra real. É possível ver práticas sadomasoquistas de verdade no filme ou tudo é ficção?

Baunilha é um filme documental. O Estúdio do Mestre Brenno Furrier fica no bairro de Boa Viagem, Recife – PE – (www.brennofurrier.com). É um dos estúdios de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) mais bem equipados da América Latina. É referência para comunidade de BDSM brasileira. O Estúdio recebe pessoas de todos os estados brasileiros e estrangeiros, principalmente, da América Latina. As cenas de dominação são reais e foram registradas de forma respeitosa e com o consentimento dos envolvidos. Tomamos o cuidado para não identificar os submissos e o Mestre Brenno Furrier. Baunilha foi produzido de forma independente sem editais de incentivo à cultura. Todos os envolvidos na equipe técnica do filme assinaram um termo de confidencialidade e sigilo para preservar a integridade física e moral do Mestre e frequentadores do Estúdio.

A temática, mesmo popularizada nos cinemas recentemente como Cinquenta Tons de Cinza, ainda é um tanto polêmica. Seu filme busca trazer isso de forma natural? Como foi sua visão sobre este tipo de prática?

O meu objetivo nunca foi debater a prática BDSM ou discutir o que é certo ou errado. Não tenho interesse em emitir julgamentos morais sobre a vida particular do Mestre Brenno Furrier e dos submissos que procuram seu estúdio para satisfazerem seus fetiches. A preocupação é mostrar um novo olhar, uma nova abordagem sobre um tema, injustamente, desgastado pela indústria de entretenimento adulto. Os filmes pornôs apresentam uma visão deturpada do universo BDSM, passam a ideia de uma prática bizarra.  Aprendi que o BDSM é uma relação de dominação e submissão, é troca de poder, de forma consentida, em que os limites do submisso ou submissa, obrigatoriamente, têm que ser respeitados. Dominação não é abuso, perversão, algo imposto ou manipulação. O filme Cinquenta Tons de Cinza (2015), de Sam Taylor-Johnson, infelizmente, aborda o tema de forma equivocada sem compromisso com a realidade da prática.

Pernambuco é sempre presente no Festival de Brasília. Como é o mercado audiovisual no seu estado?

Uma importante iniciativa que movimenta e impulsiona o cinema pernambucano é o edital do Audiovisual do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura). O Funcultura é o principal mecanismo de fomento e difusão da produção cultural no Estado. Tem proporcionado a criação e manutenção de festivais e mostras de cinema. Além da produção de curtas e longas-metragens e outros produtos para TV. Pernambuco é um celeiro de grandes artistas e intelectuais e o edital vem cada vez mais fortalecendo e profissionalizando o mercado do audiovisual. Vejo, também, surgir em Pernambuco uma geração de realizadores que trabalham com o cinema de guerrilha. Um cinema forte, expressivo e legítimo que não depende dos editais de incentivo à cultura. Essa produção independente traz uma nova oxigenação para o mercado. Uma geração que não quer mais ficar à mercê dos editais e sim buscar alternativas criativas eficazes para produção e distribuição dos seus trabalhos.

*Por Michel Toronaga – micheltoronaga@cine61.com.br

Filmes de abertura e encerramento do Festival de Brasília

Em 15 de setembro, a 50ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro se inicia com a primeira exibição no Brasil do longa Não Devore Meu Coração!, de Felipe Bragança, filme brasileiro que foi destaque das programações de festivais internacionais importantes como Sundance e Berlim. A noite também será marcada pela homenagem a Nelson Pereira dos Santos. Realizador fundamental do cinema brasileiro, autor de obras primas da cinematografia nacional, como Rio 40 Graus (1955), Vidas Secas (1963) e Memórias do Dárcere (1984), Nelson é um dos precursores do Cinema Novo, membro da Academia Brasileira de Letras e figura presente ao longo da história do Festival de Brasília. 
Não Devore Meu Coração!
Na ocasião, será outorgada a ele a medalha Paulo Emílio Salles Gomes, criada em 2016 para homenagear grandes nomes do cinema brasileiro, relembrando o principal responsável pela instituição do Festival. Para celebrar essa homenagem será exibido o curta Festejo Muito Pessoal, de Carlos Adriano, realizado no contexto do centenário de nascimento de Paulo Emilio, em 2016. 
Abaixo a Gravidade
Para fechar a 50ª edição, em 24 de setembro, será exibido o novo longa do cineasta baiano Edgard Navarro, Abaixo a Gravidade. Ele foi o grande vencedor do festival em 2005, com seu primeiro longa, Eu me Lembro. Na mesma noite serão entregues os prêmios das mostras competitivas de longas e curtas-metragens e da Mostra Brasília.

Festival de Brasília também nas regiões administrativas

Comemorando uma edição histórica, o 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro irá expandir sua programação visando democratizar o acesso à cultura no Distrito Federal. A Mostra Competitiva terá sessões em Taguatinga, Sobradinho, Gama e Riacho Fundo I. Além das exibições, as RAs receberão uma programação multicultural com DJs, bandas, praça de alimentação e oficinas com inscrições gratuitas no site do FBCB. Toda a programação será gratuita. Cada Região Administrativa terá uma sede do 50º FBCB, onde serão realizadas exibições de filmes e atividades multiculturais.
Foto: Toninho Tavares/Agência Brasília
De 16 a 23 de setembro, a partir das 18h e após as 22h, um DJ irá ambientar o espaço para receber a população. Cada RA terá programação própria com artistas que dialogam com as cidades. Alguns dos DJs que irão compor esse calendário, são: DJ Di Afreeka, DJ Itin do Brasil e DJ Lethal Breakz em Taguatinga. DJ Raul e DJ Marcos Pinheiro e DJ Linguiça em Sobradinho. DJ Brotha e DJ Roger no Gama. DJ Breno Uriel e DJ Raposa no Riacho Fundo I.

DJ Linguiça

Os filmes da tradicional Mostra Competitiva serão exibidos às 20h nas sedes das RAs. Apenas no sábado (16), as sessões serão às 19h e às 21h30. A partir das 18h, os DJs e bandas entrarão em cena. A programação musical será ampla para atender todos os gostos e estilos, do jazz ao samba, com os grupos: Samba Flores, Chinelo de Couro, 300 e Jazz, Darshan, Boi de Seu Teodoro, Supervibe, As Batuqueiras, entre outras atrações. O Festivalzinho ainda compõe a programação. A mostra é voltada para o público infantil e exibirá os filmes, sempre às 14h30, em Taguatinga, Gama, Sobradinho e Riacho Fundo. As sessões serão realizadas em escolas públicas agendadas, mas o público poderá assistir os filmes. A entrada é franca. Os ingressos devem ser retirados 30 minutos antes da sessão.

Curta O Peixe será exibido
Também serão promovidas oficinas nas sedes do FBCB. A população poderá participar de aulas: LAB Intensivo de Séries de TV, com Aleksei Abib – no Guará; Direção de Arte, com Monica Palazzo – em Taguatinga; Infortúnios e virtudes do roteiro, com Hilton Lacerda – na Ceilândia; Compondo trilhas sonoras, com Mateus Alves – no Gama. Neste ano, o Festival ainda vai contar com o projeto Cinema Voador. Serão realizadas sessões com entrada franca na Estrutural, Paranoá, Recanto das Emas, Fercal e São Sebastião.

Diretor fala do homoerotismo voyeur de Inocentes

Douglas Soares está na mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro com o curta-metragem Inocentes. O cineasta, na entrevista a seguir, comenta sobre as inspirações e mais detalhes sobre seu filme:

Como você conheceu o trabalho de Alair Gomes?

Eu conheci parte da obra do Alair Gomes em 2010, através do catálogo de uma exposição realizada pelo curador Alexandre Santos, em Porto Alegre. Inspirado em um curta-metragem chamado Sal Grosso, dos realizadores André Amparo e Ana Cristina Murta, eu buscava um argumento que me permitisse trabalhar a ressignificação da imagem através de um artifício externo a ela, como o som trans narrativo utilizado neste curta, por exemplo. Quando vi as imagens de Alair Gomes pela primeira vez, percebi que elas também continham essa narrativa. Dois desconhecidos homens na praia, malhando, poderiam se transformar em dois amantes apenas pelo enquadramento deste fotógrafo, ou através da seleção de quais imagens ajudariam a contar uma história que ia de encontro com seus desejos pessoais. Alair Gomes era um voyeur nato, precursor de uma obra homoerótica brasileira, e eu me identificava muito com esse desejo, esse tesão, que parte do olhar. Em seguida, passei a pesquisar sua obra, os textos que escreveu enquanto crítico de arte, os diários íntimos, e fui elaborando um roteiro ensaístico que abarcasse uma trajetória fotográfica, mas que tratasse também do personagem voyeur para além da figura do Alair. O voyeur no mundo. Assim, aquele espectador que não estivesse familiarizado com suas imagens também extrairia algo do filme. Dessa forma nasceu Inocentes, que tem esse título inspirado no poema Inocentes do Leblon, de Carlos Drummond de Andrade, outra referência para criar as imagens.

Você procurou recriar o clima carioca dos anos 70? Como?  Alair Gomes descobre a fotografia em meados da década de 1960, mas é no finalzinho, até a década de 1980, que ocorre o seu boom criativo. É nessa época que nasceram as Sonatinas, a série The Course of The Sun e Sinfonia de Ícones Eróticos, sua série mais explícita e obsessiva, contendo mais de 1700 fotografias catalogadas em uma ordem expositiva única. O padrão de beleza naquela época era bem diferente dos dias de hoje, com seus corpos mais volumosos e seus poucos pelos. Pra manter essa dicotomia da beleza masculina, o ideal que Alair buscava em sua obra, eu fazia questão que a imagem do filme fosse atemporal. Tinha que resgatar estes corpos magros e definidos, mas sem esconder as escolhas de hoje, a tecnologia presente. Eu queria recriar uma bolha temporal na frente da janela, de onde o voyeur observava a praia, sem a preocupação de ser um filme de época. Mais do que recriar um Rio de Janeiro setentista, eu precisava recriar a atmosfera do Alair, seu olhar tão urgente. Não é a toa sua obra vem passando por um resgate, nos dias de hoje.

Não é a primeira vez que você e Allan Ribeiro, que também é da Acalante Filmes, participam do Festival de Brasília. Para você, como é entrar na Mostra Competitiva no ano que o evento comemora meio século de existência?

Eu e Allan Ribeiro participamos do Festival de Brasília desde o ano de 2006, quando O Brilho dos Meus Olhos, um filme realizado por ele na UFF, foi selecionado pra competitiva de curtas em 35mm. Em 2008, meu primeiro curta como diretor (Minha Tia, Meu Primo) também foi selecionado para a extinta Mostra 16mm. Desde então, exibimos o longa Esse Amor Que Nos Consome (2012) e Contos da Maré, vencedor do prêmio de Melhor Curta Documentário, em 2013 – quando o festival optou por manter a separação dos gêneros em competição. É uma participação muito recente dentro da história do festival, mas fomos testemunhas de mudanças profundas, provando que o Festival de Brasília está sempre em constante movimento, propondo caminhos que podemos ou não concordar, mas que mostram a importância deste que é um dos mais relevantes eventos cinematográficos que temos. Acredito que todos os filmes selecionados pra esta edição estão honrados por fazer parte desta comemoração de 50 anos.

Qual o papel do cinema em tempos de extremismos e homofobia?  Sendo honesto, eu ainda não sei qual poder o cinema tem em relação a estas questões. Há uma vontade de falar sobre, e espero que mais filmes surjam com a intenção, mesmo secundária, de conscientizar para a nossa diversidade sexual. Eu acho importante que o espectador passe pela experiência de descobrir que existem personagens vivendo uma vida diferente da sua, com condições diversas. Que sejam filmes plurais no retrato, que haja espaço pra diversidades temáticas e de linguagem. Que fale com o gay da periferia, com o gay adolescente, com o gay da terceira idade, com o gay negro e com a mulher gay. Os resultados só saberemos a longo prazo. Por enquanto, existem os filmes e isso já é muito potente.   


Como é Xale, seu primeiro longa-metragem? Xale é um filme que realizei de 2014 a 2015, de forma independente, e que teve estreia no Festival do Rio, em 2016. É o meu primeiro longa-metragem, que dá continuidade ao material familiar e pessoal que utilizei nos filmes anteriores. Narra a minha relação com a minha avó, uma senhora de 89 anos que está passando por um processo de perda de memória recente. Enquanto isso, um misterioso passado armênio ressurge para o neto. Uma terra distante, de seus ascendentes, que o neto busca conhecer e trazer de volta para a avó. É um filme bastante ficcional na sua busca por recriar o “real”. Gosto muito dessa mistura do filme pessoal com a ficção, me dá uma liberdade absurda pra reencenar as coisas que vejo e sinto em filme, não importando muito em que gênero ele vai resultar.  

*Por Michel Toronaga – micheltoronaga@cine61.com.br

Só tem fera na Clínica de Projetos do FBCB

Visando a qualificação dos produtores independentes e seus respectivos projetos, a Clínica de Projetos da 50ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro se desdobra em workshops ministrados por profissionais com relevante experiência comercial em mercados nacionais e internacionais, com o objetivo de aprimorar os projetos para futuras negociações com players e agentes de vendas. Duração de 45 minutos por projeto. Conheça os consultores que irão integrar a Clínica de Projetos: 
Rodrigo M Terra – Planejamento de distribuição em múltiplas plataformas – Pós-Graduado em Administração pela FGV. Especialista em Empreendedorismo pelo IBMEC-SP. Graduado em Rádio e TV pela FAAP-SP. Como presidente da Associação Era Transmídia, realiza parcerias com SENAC, TECNA RS, BH Tec e Polo AV de Cataguases, Spcine, ABRESI, APRO, ABPITV, Power to the Pixel, Conductrr e SET. Conduziu projetos em audiovisual e transmídia para TV Cultura-SP, Grupo TV1, Grupo Abril, Turner, TV Futura, Sky, Natura, Net, Tilibra e EduK. Com experiência internacional, participou como palestrante, convidado, jurado e cobertura em festivais (SXSW, dentre outros) e feiras de negócios. 
Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
Mariana Brasil Desenvolvimento de projeto e planejamento de produção para TV – Trabalha há duas décadas no mercado de produção independente, sendo que há 9 anos atua na área de produções para TV. Desde 2012 é sócia da empresa Mari Brasil, que faz consultoria e ministra cursos em desenvolvimento de projetos para TV. Atendeu mais de 1000 alunos e produtores independentes em todo o Brasil. 

Ana Paula Silva – Adequação do projeto: desenvolvimento, produção, direitos, distribuição – Produtora executiva na Intro Pictures, trabalhou como gerente de conteúdo na Elo Company na área de aquisição, análise de conteúdo, projetos e estratégia de comercialização. Anteriormente, produziu pela Mosquito Project, as séries No Borders, Reis da Rua (terceira temporada), entre outros projetos. 
Foto: Junior Aragão
Rafael Sampaio – Formação de Projeto e Estratégias para Circulação Internacional – É diretor geral do BrLab, produtor e sócio fundador da Klaxon. Atua, desde 2001, como produtor de mostras e festivais de cinema. Foi programador em espaços culturais, tais como MIS (São Paulo), Cinemateca Brasileira e Cine Olido, além de ter produzido a Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Coordena cursos de formação profissional: Laboratórios de Desenvolvimento de Projetos do Prodav 4 (2013 e 2014), para diferentes tipologias (séries de ficção, animação e documentais, além de longas de ficção e animação). 

Pitchings abertos
Os selecionados para o pitching aberto terão cinco minutos para apresentação de defesa oral diante de uma banca de agentes de festivais de cinema, distribuidoras ou de canais de TV. A defesa pode ser assistida pelos credenciados do Ambiente de Mercado. Ao final de cada apresentação, a banca comenta os projetos, identificando afinidades ou sugerindo caminhos aos realizadores, com direito à réplica do representante.

A semana (14/9 a 20/9) no Espaço Itaú de Cinema

Veja a seguir os filmes que passarão esta semana no Espaço Itaú de Cinema, que fica no shopping CasaPark (Guará). A programação completa, com todos os horários, você encontra no site oficial da rede: http://www.itaucinemas.com.br/ Antes, confira os valores atualizados dos ingressos do Espaço Itaú de Cinema Brasília.

Uma Mulher Fantástica – Marina é uma garçonete transexual que passa boa parte dos seus dias buscando seu sustento. Seu verdadeiro sonho é ser uma cantora de sucesso e, para isso, canta durante a noite em diversos clubes de sua cidade. O problema é que, após a inesperada morte de seu namorado e maior companheiro, sua vida dá uma guinada total.


Atômica – Lorraine Broughton (Charlize Theron), uma agente disfarçada do MI6, é enviada para Berlim durante a Guerra Fria para investigar o assassinato de um oficial e recuperar uma lista perdida de agentes duplos. Ao lado de David Percival (James McAvoy), chefe da localidade, a assassina brutal usará todas as suas habilidades nesse confronto de espiões.

O Jantar – Dois casais se encontram em um elegante restaurante de Amsterdã. Enquanto a comida vai e vem, eles começam a conversar, passando por banalidades da vida até assuntos mais complicados. A discussão chega ao seu limite quando falam sobre seus filhos adolescentes, dois rapazes que estão envolvidos em uma complicada investigação policial.

Feito na América
Feito Na América – Barry Seal (Tom Cruise) é um piloto que trafica drogas e armas para o mítico cartel de Medellín e, recrutado pela CIA, torna-se agente duplo.


Columbus – Casey mora com sua mãe em uma pequena cidade assombrada pela promessa de modernismo. Jin, um visitante do outro lado do mundo, comparece para ver seu pai, que está morrendo. Sobrecarregados pelo peso do futuro, eles encontram refúgio um no outro e na arquitetura que os cerca.
2:22 – Encontro Marcado – Dylan Branson (Michiel Huisman) é um homem que tem a sua vida permanentemente mudada quando uma série de eventos se repete exatamente no mesmo horário todos os dias, às 2:22 da tarde. Quando Dylan se apaixona por Sarah (Teresa Palmer), uma jovem mulher que tem sua vida ameaçada pelos eventos ocorridos, ele deve resolver o mistério que o cerca para preservar o amor que a vida lhe ofereceu como uma segunda chance.



O Que Será de Nozes? 2 – Sequência da comédia de sucesso sobre um grupo de esquilos urbanos que planeja roubar uma loja com nozes e armazenar alimento para sobreviver ao inverno.

It – A Coisa
It – A Coisa – Um grupo de sete adolescentes de Derry, uma cidade no Maine, forma o auto-intitulado “Losers Club” – o clube dos perdedores. A pacata rotina da cidade é abalada quando crianças começam a desaparecer e tudo o que pode ser encontrado delas são partes de seus corpos. Logo, os integrantes do “Losers Club” acabam ficando face a face com o responsável pelos crimes: o palhaço Pennywise.

Emoji: O Filme – Textopolis é a cidade onde os Emojis favoritos dos usuários de smartphones vivem e trabalham. Lá, todos eles vivem em função de um sonho: serem usados nos textos dos humanos. Todos estão acostumados a ter somente uma expressão facial – com exceção de Gene, que nasceu com um bug em seu sistema, que o permite trocar de rosto através de um filtro especial. Determinado à se tornar um emoji normal como todos os outros, eles vai encarar uma jornada fantásticas através dos aplicativos de celular mais populares desta geração – e no meio do caminho, claro, fazer novos amigos.


O Sequestro – Uma mulher (Halle Barry), que tem seu filho sequestrado em um parque local, embarca numa corrida contra o tempo para salvá-lo.


Bingo – O Rei das Manhãs – Cinebiografia de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo no programa matinal homônimo exibido pelo SBT durante a década de 1980. Barreto alcançou a fama graças ao personagem, apesar de jamais ser reconhecido pelas pessoas por sempre estar fantasiado. Esta frustração o levou a se envolver com drogas, chegando a utilizar cocaína e crack nos bastidores do programa.

Polícia Federal – A Lei é Para Todos

Polícia Federal – A Lei é Para Todos – Inspirado em fatos reais sobre a Operação Lava-Jato, uma série de investigações sobre a corrupção no Brasil, desde o início do processo até a condução coercitiva do ex-presidente Lula. Marcelo Serrado interpreta o juiz Sérgio Moro.

Como Nossos Pais – Rosa (Maria Ribeiro), 38 anos, é uma mulher que se encontra em uma fase peculiar de sua vida, marcada por conflitos pessoais e geracionais: ao mesmo tempo em que precisa desenvolver sua habilidade como mãe de suas filhas, manter seus sonhos, seus objetivos profissionais e enfrentar as dificuldades do casamento, Rosa também continua sendo filha de sua mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), com quem possui uma relação cheia de conflitos.


Amityville: O Despertar – Novo filme da franquia de terror Amityville. Desta vez, uma jovem jornalista decide fazer uma reportagem para revelar todos os acontecimentos de Amityville, desde 1976. Ela chega ao local acompanhada de padres, outros jornalistas e de investigadores de atividades paranormais. No entanto, os fenômenos de antigamente voltam a acontecer.

Gabriel Martins comenta sobre o seu curta, Nada

Integrante da mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o curta-metragem Nada tem direção do cineasta mineiro Gabriel Martins. Na entrevista a seguir, o diretor comenta um pouco sobre o seu filme. A trama fala de uma adolescente que não quer fazer nada quando o assunto é estudar.

Além de dirigir, você também escreveu Nada. De onde veio a ideia para o roteiro?
Me veio a imagem de uma menina que respondia que não queria fazer nada. A partir dessa imagem e cena todo o resto foi se desenrolando.  

Você acredita que existe uma cobrança para que crianças e jovens decidam o que “querem ser quando crescer”?
Certamente. Nossa sociedade é muito impositiva, principalmente na relação com trabalho. A educação em certo período se volta mais para uma formação de mercado/vestibular do que qualquer outra coisa.

Como foi a experiência de levar seu filme ao festival de Cannes?
Foi intensa e muito positiva, principalmente pela atenção que o filme recebeu.  

A produtora Filmes de Plástico volta e meia aparece no Festival de Brasília. Como você avalia o festival?
Esse ano promete ser uma virada muito positiva ao ampliar os seus escopos. A tradição do festival e sua história são valiosos e este ano me parece existir a vontade mais cinéfila e ampla de brindar essa trajetória.

Fale um pouco mais sobre os novos projetos da Filmes de Plástico.
Estamos no momento terminando de montar No Coração do Mundo, dirigido por mim e Maurílio Martins. Filmamos agora em agosto e setembro o Temporada, filme novo do André Novais Oliveira. São os projetos que vamos lançar no próximo ano. Em breve filmo também o primeiro longa que vou dirigir sozinho, chamado Marte Um.  

*Por Michel Toronaga – micheltoronaga@cine61.com.br